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domingo, 28 de maio de 2017

Exortação ao conhecimento das Sagradas Escrituras (Parte 2)






Essa é a Parte 2/3 da homilia, Uma Proveitosa Exortação à Leitura e ao Conhecimento das Sagradas Escrituras. (Leia a Parte 1)
A primeira parte desse sermão, que exorta ao conhecimento das Sagrada Escrituras, afirmou que o conhecimento das mesmas é necessário e proveitoso para todos os homens e que pelo verdadeiro conhecimento e entendimento das Escrituras as questões mais necessárias sobre o nosso dever para com Deus e para com nossos próximos também são conhecidas. Agora, quanto ao mesmo assunto, você precisa ouvir o que vem a seguir. Se confessamos a Cristo, por que não nos envergonhamos de sermos ignorantes quanto à sua doutrina, visto que todo homem se envergonha de ser ignorante daquele aprendizado que ele afirma ter?
A Palavra de Deus excede todas as ciências. O homem que é chamado de filósofo, mas não lê os livros de filosofia é envergonhado; o mesmo ocorre com aquele que é chamado de advogado, astrônomo ou físico, que seja ignorante dos livros de direito, astronomia e física. Ora, alguém que professa a Cristo e sua religião, pode não se dedicar (o máximo que puder ou for conveniente) a ler e ouvir, e assim conhecer os livros do evangelho e da doutrina de Cristo? Ainda que outras ciências sejam boas e devam ser aprendidas, o que nenhum homem pode negar, entretanto, a ciência de Cristo é essencial e ultrapassa todos os outros conhecimentos de modo incomparável. Que desculpas daremos, então, no último dia diante de Cristo, se nos deleitarmos em ouvir fantasias e invenções humanas mais do que nos deleitamos em seu santíssimo evangelho? E não encontraremos tempo para fazer o que devemos principalmente (sobre todas as coisas), se preferirmos ler outras coisas em vez da Palavra de Deus, pela qual deveríamos, antes, deixar todas as demais leituras. Portanto, apliquemos a nós mesmos, enquanto tivermos tempo e descanso, a conhecer a Palavra de Deus, por meio de ouvi-la e lê-la com diligência, se nós professamos a Deus e temos fé e confiança nele.
Desculpas vãs dissuadem do conhecimento da Palavra de Cristo. Aqueles que não têm boa afeição pela Palavra de Deus dão comumente duas desculpas vãs para disfarçar essa sua culpa. Alguns vão se desculpar por sua fraqueza e medo, dizendo que não se atrevem a ler as Sagradas Escrituras, pois temem que por sua ignorância não caiam em algum erro. Já outros fingem que a dificuldade de compreender a Palavra de Deus e a complexidade dela é tão grande, que é necessário ser lida apenas por pastores e homens eruditos.
Quanto à primeira desculpa, a ignorância da Palavra de Deus é a causa de todo erro, como o próprio Cristo afirmou aos saduceus, dizendo que eles erravam porque não conheciam a Escritura (Mateus 22.29). Como as pessoas evitarão o erro, se continuam sendo ignorantes? E como sairão da ignorância, se não leem ou ouvem aquilo que pode guia-los ao conhecimento? Aquele que nesse momento tem o maior conhecimento, já foi inicialmente ignorante; ainda assim, ele não se absteve de ler por temer cair em erro, mas leu diligentemente para que não permanecesse em ignorância, e pela ignorância, no erro. E se você não conhece a verdade de Deus (a coisa mais necessária) para que não caia em erro, pelo mesmo motivo você pode ficar deitado e nunca caminhar, para que não venha a cair na lama; nem coma nenhuma boa comida, para que não venha a se engasgar; nem semeie a sua semente, nem trabalhe, nem estoque, para que não corra o risco de perder a sua semente, seu trabalho e sua provisão. Seria melhor você viver na ociosidade, e nunca fazer qualquer coisa boa, para que algo de ruim não venha a lhe ocorrer.
E, se você teme cair em erro, leia as Sagradas Escrituras; eu lhe mostrarei como você pode lê-la sem perigo de cair em erros… [Continua na Parte 3]

Exortação ao conhecimento das Sagradas Escrituras (Parte 3) (Reforma 500)

exortacao-ao-conhecimento-das-sagradas-p3
Thomas Cranmer, reformador inglês, nos dá uma magistral e proveitosa exortação à leitura e ao conhecimento das Sagradas Escrituras (Parte 3/3).





sábado, 27 de maio de 2017

Exortação ao conhecimento das Sagradas Escrituras (Parte 1) (Reforma 500)











500 anos de Reforma Protestante


Em comemoração aos 500 anos de Reforma Protestante, o Voltemos ao Evangelho trará artigos semanais e biografias de diferentes reformadores: Girolamo Zachi (jan), Theodoro Beza (fev), Thomas Cranmer (mar), Guilherme Farrel (abr), William Tyndale (mai), Martin Bucer (jun), John Knox (jul), Ulrico Zuínglio (ago), João Calvino (set) e Martinho Lutero (out).

Essa é a primeira de 3 partes da homilia,
Uma Proveitosa Exortação à Leitura e ao Conhecimento das Sagradas Escrituras.
A glória das Sagradas Escrituras: Para um cristão não pode haver nada mais necessário ou proveitoso do que o conhecimento das Sagradas Escrituras, uma vez que nelas está contida a verdadeira Palavra de Deus, a qual revela a sua glória e também os deveres do homem.
A perfeição das Sagradas Escrituras: E não há verdade ou doutrina necessária para a nossa salvação eterna, senão a que é (ou pode ser) extraída dessa fonte e poço da verdade.
O conhecimento das Sagradas Escrituras é necessário. Portanto, todos que desejam entrar no caminho correto e perfeito para Deus devem aplicar as suas mentes a conhecerem as Sagradas Escrituras, sem as quais eles não podem conhecer a Deus e a sua vontade de modo suficiente, nem conhecer a sua posição e dever.
A quem o conhecimento das Sagradas Escrituras é doce e agradável; e quem são os inimigos das Sagradas Escrituras. Como a bebida é agradável para os sedentos, e como a comida é deleitosa para o faminto, assim é a leitura, audição, exame e estudo das Sagradas Escrituras para aqueles que são desejosos de conhecer a Deus e a sua vontade ou a si mesmos. E somente os estômagos cheios das vaidades mundanas aborrecem e odeiam o conhecimento e alimento da Palavra de Deus, de modo que nos tais não há o favor de Deus, nem piedade alguma. Esta é a causa do porque eles desejam tais vaidades, em vez do conhecimento de Deus,
Uma analogia adequada para declarar quem odeia as Escrituras. Assim como para aqueles que estão enfermos e sentem dor — não importa o que comam ou bebam, mesmo que seja apetitoso — tudo será amargoso como absinto ao seu paladar; não que a comida ou bebida sejam amargas, mas pela corrupção e gosto amargo de suas próprias línguas; desse modo, a Palavra de Deus é amarga, não em si mesma, mas para aqueles que têm as suas mentes corrompidas pelo prolongado costume do pecado e pelo amor a esse mundo.
Primeira parte da exortação
Uma exortação à leitura e exame diligentes das Sagradas Escrituras. Rejeitem a corrupção dos homens carnais, os quais somente se preocupam com o seu exterior. Ouçam e leiam de modo reverente as Sagradas Escrituras, as quais são o alimento da alma (Mateus 4.4). Busquem diligentemente a fonte da vida no Antigo e do Novo Testamentos, e não se vá para os poços fétidos das tradições dos homens em busca de justificação e de salvação.
As Sagradas Escrituras contêm a doutrina suficiente para a nossa salvação. O que nós aprendemos nas Sagradas Escrituras. As Sagradas Escrituras contêm plenamente o que nós devemos fazer e evitar; o que nós devemos crer e amar e o que devemos buscar das mãos de Deus. Nesses livros encontraremos o Pai, o Filho e o Espírito Santo, por quem todas as coisas foram criadas e são sustentadas. Encontraremos que essas três Pessoas são um Deus e uma substância. Nesses livros, aprendemos a conhecer quão vis e miseráveis nós somos, e também a conhecer quão bom Deus é e como ele faz as suas criaturas participarem da sua bondade. Também conhecemos a vontade de Deus e o que lhe agrada, tanto quanto (para o presente tempo) é conveniente sabermos. E, como diz o grande pastor e piedoso pregador João Crisóstomo, o que é necessário para a salvação do homem está plenamente contido nas Escrituras de Deus. Aquele que é ignorante, pode ali aprender e obter conhecimento. Aquele que é duro de coração e um pecador obstinado, encontrará ali sobre os tormentos eternos (preparados pela justiça de Deus), de modo a atemorizá-lo, comovê-lo e quebrantá-lo. Aquele que está oprimido pela miséria nesse mundo, encontrará libertação nas promessas de vida eterna, para o seu grande consolo e refrigério. Aquele que está ferido mortalmente, encontrará ali o remédio por meio do qual ele será restaurado à saúde.
As Sagradas Escrituras fornecem doutrina suficiente para todos os homens de todas as idades. Quais são os benefícios e o proveito provenientes do conhecimento das Sagradas Escrituras. Se for necessário ensinar alguma verdade ou reprovar falsas doutrinas, repreender qualquer vício, recomendar qualquer virtude, dar um bom conselho, consolar ou exortar, ou fazer qualquer outra coisa necessária para a nossa salvação, todas essas coisas, diz João Crisóstomo, podemos aprender abundantemente a partir da Escritura. Fulgêncio diz que nas Escrituras há abundantemente o suficiente, tanto para os homens comerem quanto para as crianças mamarem. Há ali o que é adequado para todas as idades, e para todas as classes e tipos de homens. Portanto, as Escrituras devem estar com frequência em nossas mãos, diante dos nossos olhos, em nossos ouvidos, nas nossas bocas, mas sobretudo em nossos corações. Porque a Escritura de Deus é o alimento celestial das nossas almas (Mateus 4.4), ouvi-la e guardá-la produz bênçãos (Lucas 11.28), santifica (João 17.17), aperfeiçoa, converte as nossas almas (Salmos 19.7), é lâmpada para nossos pés (Salmos 119.105), é um instrumento seguro, firme e eterno de salvação, ela dá sabedoria aos corações simples e humildes, conforta, alegra, ilumina e anima a nossa consciência. As Escrituras são uma joia ou tesouro mais excelente do que qualquer ouro ou pedra preciosa, são mais doces do que o mel, são chamadas de a melhor parte, que Maria escolheu, pois tem em si o conforto eterno (Lucas 10.42). As palavras da Sagrada Escritura são chamadas de palavras de vida eterna (João 6.68), pois elas são instrumentos de Deus, ordenadas para esse mesmo propósito. Elas revelam a promessa de Deus e tais promessas se cumprem pelo auxílio de Deus e sendo recebidas por um coração crente, há uma obra espiritual operando nelas. Elas são vivas, vivificadoras e eficazes, e mais cortantes do que qualquer espada de dois gumes, e penetram até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas (Hebreus 4.12). Cristo chama a si mesmo de um construtor sábio, que edifica sobre a sua palavra, sobre a seu fundamento seguro e inabalável (Mateus 7.24). Pela Palavra de Deus, nós seremos julgados, pois a própria palavra que tenho proferido, diz Cristo, essa vos julgará no último dia (João 12.48). Àquele que guarda a palavra de Cristo é prometido o amor e o favor de Deus, e que ele será a habitação ou templo da bendita Trindade (João 14.23). Para aquele que diligentemente lê a Palavra e a guarda em seu coração, a grande afeição pelas coisas desse mundo será diminuída, e crescerá em seu lugar o grande desejo pelas coisas celestiais (as quais Deus promete nas Escrituras). E não há nada que fortaleça a nossa fé e a nossa confiança em Deus, que tanto conserve a inocência e a pureza do coração e também da vida piedosa e da conversação exterior, quanto a leitura e a meditação contínuas da Palavra de Deus. Pois, aquilo que pela frequente leitura das Sagradas Escrituras e diligente exame das mesmas for impresso e gravado no coração, por fim se torna quase unido à natureza. E, além disso, o efeito e a virtude da Palavra de Deus é iluminar os ignorantes e lhes dar mais luz, para que fiel e diligentemente a leiam, confortem os seus corações e sejam encorajados a fazer o que Deus ordena. A Palavra de Deus ensina a paciência em toda adversidade, prosperidade e humildade; ensina a honra que é devida a Deus e a misericórdia e o amor que são devidos ao próximo. Ela dá bom conselho em todas as questões duvidosas, revela a quem devemos recorrer por ajuda e por socorro em todos os perigos, e que Deus é o único que dá a vitória em todas as batalhas e em todas as tentações de nossos inimigos carnais e espirituais (1 Samuel 14.4-23; 2 Crônicas 20.7, 17, 29; 1 Coríntios 15.57; 1 João 5.4).
Quem mais se beneficia ao ler a Palavra de Deus. No que diz respeito à leitura da Palavra de Deus, nem sempre tem mais proveito aquele que está sempre mais disposto a folhear o Livro ou a citá-la à parte do Livro, mas aquele que é mais transformado por ela, quem é mais ajudado pelo Espírito Santo, [1] aquele que tem o seu coração e sua vida mais afetados e modificados por aquilo que ele lê, [2] aquele que a cada dia é menos orgulhoso, irado, invejoso e desejoso dos prazeres mundanos e vãos e [3] aquele que diariamente abandona os seus antigos vícios, cresce cada vez mais em virtude. E para abreviar, não há nada que mais mantenha a piedade do homem e afaste dele a vanglória, do que a contínua leitura ou audição da Palavra de Deus, se isso estiver unido a uma mente piedosa e uma boa afeição por conhecer e seguir a vontade de Deus.
Quais são os malefícios provenientes da ignorância da Palavra de Deus. Sem uma busca simples, uma intenção pura e uma boa mentalidade, nada é admitido para bem diante de Deus. E, por outro lado, nada mais obscurece Cristo e a glória de Deus, nem produz maior cegueira e toda sorte de vícios do que a ignorância da Palavra de Deus (Isaías 5.13, 24; Mateus 22.29; 1 Coríntios 14.20, 37-38).
[Continua na Parte 2]




quinta-feira, 18 de maio de 2017

Calvinismo x Arminianismo




INTRODUÇÃO

O termo Calvinismo é dado ao sistema soteriológico de Reformadores - protestante, exposto e defendido pelo Sínodo de Dort. Seu sistema de interpretação bíblica pode ser resumido em cinco pontos, conhecidos como “os 5 pontos do Calvinismo”(acróstico TULIP em inglês):

1 – Total Depravity (Depravação total) – Todos os homens nascem totalmente depravados, incapazes de se salvar ou de escolher o bem em questões espirituais.

2 – Unconditional Election (Eleição incondicional) – Deus escolheu dentre todos os seres humanos decaídos um grande número de pecadores por graça pura, sem levar em conta qualquer mérito, obra ou fé prevista neles.

3 – Limited Atonement (Expiação limitada) – Jesus Cristo morreu na cruz para pagar o preço do resgate somente dos eleitos.

4 – Irresistible Grace (Graça Irresistível) – A Graça de Deus é irresistível para os eleitos, isto é, o Espírito Santo acaba convencendo e infundindo a fé salvadora neles.

5 – Perseverance of Saints (Perseverança dos Santos) – Todos os eleitos vão perseverar na fé até o fim e chegar ao céu. Nenhum perderá a salvação.

O Arminianismo é o sistema de Teologia formulado por alunos (Remonstrantes) de Jacobus Arminius (1560 – 1609), teólogo da Igreja holandesa, que resolveu refutar o sistema de da soteriologia Reformada.



OS REMONSTRANTES APRESENTARAM SEU SISTEMA EM 5 PONTOS:

1 – Capacidade humana, Livre-arbítrio – Todos os homens embora sejam pecadores, ainda são livres para aceitar ou recusar a salvação que Deus oferece.

2 – Eleição condicional – Deus elegeu os homens que ele previu que teriam fé em Cristo.

3 – Expiação ilimitada – Cristo morreu por todos os homens e não somente pelos eleitos.

4 – Graça resistível – Os homens podem resistir à Graça de Deus para não serem salvos.

5 – Decair da Graça – Homens salvos podem perder a salvação caso não perseverem na fé até o fim.

O sistema teológico de Armínio foi derrotado no Sínodo de Dort em 1619 na Holanda, por ser considerado antibíblico. Por incrível que possa parecer hoje o Arminianismo é o sistema teológico adotado pela maior parte das igrejas evangélicas. As seitas e o Catolicismo Romano também rejeitam o Calvinismo.

1. LIVRE-ARBÍTRIO OU CAPACIDADE HUMANA (ARMINIANISMO)

Embora a queda de Adão tenha afetado seriamente a natureza humana, as pessoas não ficaram num estado de total incapacidade espiritual. Todo pecador pode arrepender-se e crer, por livre-arbítrio, cujo uso determinará seu destino eterno. O pecador precisa da ajuda do Espírito, e só é regenerado depois de crer, porque o exercício da fé é a participação humana no novo nascimento.

1. INCAPACIDADE TOTAL OU DEPRAVAÇÃO TOTAL (CALVINISMO)

O homem natural não pode sequer apreciar as coisas de Deus. Menos ainda salvar-se. Ele é cego, surdo, mudo, impotente, leproso espiritual, morto em seu pecado, insensível à graça comum. Se Deus não tomar a iniciativa, infundindo-lhe a fé salvadora, e fazendo-o ressuscitar espiritualmente, o homem natural continuará morto eternamente. (Salmos 51:5; Jeremias 13:23; Romanos 3:10 – 12; 7:18; 1 Coríntios 2:14; Efésios 1:3 – 12; Colossenses 2:11 – 13).

2. ELEIÇÃO CONDICIONAL (ARMINIANISMO)

Deus escolheu as pessoas para a salvação, antes da fundação do mundo, baseado em Sua presciência. Ele previu quem aceitaria livremente a salvação e predestinou os salvos. A salvação ocorre quando o pecador escolhe a Cristo; não é Deus quem escolhe o pecador. O pecador deve exercer sua própria fé, para crer em Cristo e ser salvo. Os que se perdem, perdem-se por livre escolha: não quiseram crer em Cristo, rejeitaram a graça auxiliadora de Deus.

2. ELEIÇÃO INCONDICIONAL (CALVINISMO)

Deus elegeu alguns para a salvação em Cristo, reprovando os demais. Aos eleitos Deus manifesta a Sua misericórdia e aos reprovados a Sua justiça. Deus não tem a obrigação de salvar ninguém, nem homens nem anjos decaídos. Resolveu soberanamente salvar alguns homens (reprovando todos os demais) e torná-los filhos adotivos quando eram filhos das trevas. Teve misericórdia de algumas criaturas, e deixou as demais (inclusive os demônios) entregues às suas próprias paixões pecaminosas. A salvação é efetuada totalmente por Deus. A fé, como a salvação, é dom de Deus ao homem, não do homem a Deus. (Malaquias 1:2, 3; João 6:65; 13:18; 15:6; 17:9; Atos 13:48; Romanos 8:29, 30 – 33; 9:16; 11:5 – 7; Efésios 1:4, 5; 2:8 – 10; 2 Tessalonicenses 2:13; 1 Pedro 2:8, 9; Judas 1:4).

3. REDENÇÃO UNIVERSAL OU EXPIAÇÃO GERAL (ARMINIANISMO)

O sacrifício de Cristo torna possível a toda e qualquer pessoa salvar-se pela fé, mas não assegura a salvação de ninguém. Só os que crêem nEle, e todos os que crêem, serão salvos.

3. REDENÇÃO PARTICULAR OU EXPIAÇÃO LIMITADA (CALVINISMO)

Segundo Agostinho, a graça de Deus é “suficiente para todos, eficiente para os eleitos”. Cristo foi sacrificado para redimir Seu povo, não para tentar redimi-lo. Ele abriu a porta da salvação para todos, porém, só os eleitos querem entrar, e efetivamente entram.
(João 17:6, 9, 10; Atos 20:28; Efésios 5:15; Tito 3:5).

4. PODE-SE EFETIVAMENTE RESISTIR AO ESPÍRITO SANTO (ARMINIANISMO)

Deus faz tudo o que pode para salvar os pecadores. Estes, porém, sendo livres, podem resistir aos apelos da graça. Se o pecador não reagir positivamente, o Espírito não pode conceder vida. Portanto, a graça de Deus não é infalível nem irresistível. O homem pode frustrar a vontade de Deus para sua salvação.

4. A VOCAÇÃO EFICAZ DO ESPÍRITO OU GRAÇA IRRESISTÍVEL (CALVINISMO)

Embora os homens possam resistir à graça de Deus, ela é, todavia, infalível: acaba convencendo o pecador de seu estado depravado, convertendo-o, dando-lhe nova vida, e santificando-o. O Espírito Santo realiza isto sem coação. É como um rapaz apaixonado que ganha o amor de sua eleita e ela acaba casando-se com ele, livremente. Deus age e o crente reage, livremente. Quem se perde tem consciência de que está livremente rejeitando a salvação. Alguns escarnecem de Deus, outros se enfurecem, outros adiam a decisão, outros demonstram total indiferença para as coisas sagradas. Todos, porém, agem livremente.
(Jeremias 3:3; 5:24; 24:7; Ezequiel 11:19, 20; 36:26, 27; 1 Coríntios 4:7; 2 Coríntios 5:17; Efésios 1:19, 20; Colossenses 2:13; Hebreus 12:2).

5. DECAIR DA GRAÇA (ARMINIANISMO)

Embora o pecador tenha exercido fé, crido em Cristo e nascido de novo para crescer na santificação, ele poderá cair da graça. Só quem perseverar até o fim é que será salvo.

5. PERSEVERANÇA DOS SANTOS (CALVINISMO)

Alguns preferem dizer “perseverança do Salvador”. Nada há no homem que o habilite a perseverar na obediência e fidelidade ao Senhor. O Espírito é quem persevera pacientemente, exercendo misericórdia e disciplina, na condução do crente. Quando ímpio, estava morto em pecado, e ressuscitou: Cristo lhe aplicou Seu sangue remidor, e a graça salvífica de Deus infundiu-lhe fé em para crer em Cristo e obedecer a Deus. Se todo o processo de salvação é obra de Deus, o homem não pode perdê-la! Segundo a Bíblia, é impossível que o crente regenerado venha a perder sua salvação. Poderá até pecar e morrer fisicamente (1 Coríntios 5:1 – 5). Os apóstatas nunca nasceram de novo, jamais se converteram.
(Isaías 54:10; João 6:51; Romanos 5:8 – 10; 8:28 – 32, 34 – 39; 11:29; Filipenses 1:6; 2 Tessalonicenses 3:3; Hebreus 7:25).

ARMINIANISMO – REJEITADO PELO SÍNODO DE DORT

Este foi o sistema de pensamento contido na “Remonstrância” (embora originalmente os cinco pontos não estivessem dispostos nessa ordem). Esse sistema foi apresentado pelos arminianos à Igreja na Holanda em 1610, mas foi rejeitado pelo Sínodo de Dort em 1619 sob a justificativa de que era antibíblico.

CALVINISMO – REAFIRMADO PELO SÍNODO DE DORT

Este sistema de teologia foi reafirmado pelo Sínodo de Dort em 1619 como sendo a doutrina da salvação contida nas Escrituras Sagradas. Naquela ocasião, o sistema foi formulado em “cinco pontos” (em resposta aos cinco pontos apresentados pelos arminianos) e desde então tem sido conhecido como “os cinco pontos do calvinismo”. 

HISTÓRIA

O Sínodo de Dort (também conhecido como o Sínodo de Dordt ou Sínodo de Dordrecht) foi um sínodo nacional que teve lugar em Dordrecht, na Holanda, de 1618 a 1619 pela Igreja Reformada Holandesa, com o objetivo de regular uma séria controvérsia nas Igrejas Holandesas iniciada pela ascensão do arminianismo.


O sínodo decidiu pela rejeição das ideias arminianas, estabelecendo a doutrina reformada em cinco pontos: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, vocação eficaz (ou graça irresistível) e perseverança dos santos. Estas doutrinas, descritas no documento final chamado Cânones de Dort, são também conhecidas como os Cinco pontos do calvinismo.

A controvérsia dividiu a nação e se prolongou até 1619, quando Armínio morreu vitimado pela tuberculose. No ano seguinte, seus simpatizantes publicaram a “Remonstrância”, um documento no qual resumiram em cinco pontos a sua rejeição do calvinismo clássico. Com o reinício dos tumultos, o Parlamento convocou um sínodo para resolver a controvérsia. O Sínodo de Dort teve 180 sessões que se estenderam de 13 de novembro de 1618 a 29 de maio de 1619. Os delegados holandeses incluíam 58 pastores e presbíteros enviados pelos sínodos provinciais e cinco teólogos de diferentes academias. Também compareceram 28 teólogos de diversas cidades da Inglaterra, Escócia, Alemanha e Suíça (inclusive de Genebra). Os remonstrantes participaram do sínodo por algum tempo, mas depois foram afastados. Com base nos relatórios das delegações, uma comissão de nove membros redigiu os Cânones, que condenaram as idéias dos arminianos e afirmaram as convicções reformadas.

Os Cânones de Dort abordam cinco tópicos doutrinários em 59 artigos: (1) A predestinação divina; (2) A morte de Cristo e a redenção do homem; (3 – 4) A corrupção do homem e sua conversão a Deus; (5) A perseverança dos santos. As principais ênfases do documento são as seguintes: Deus elege e reprova não com base na previsão de fé ou incredulidade, mas por sua vontade soberana – a morte de Cristo foi suficiente para todos, mas é eficaz somente para os eleitos – mediante a queda, a humanidade ficou totalmente corrompida – a graça de Deus atua eficazmente para converter os descrentes, embora não o faça por coerção – Deus preserva os crentes de modo que não podem decair totalmente da graça. Essas declarações foram resumidas em algumas expressões conhecidas como “os cinco pontos do calvinismo”: Depravação total, Eleição incondicional, Expiação limitada, Graça irresistível e Perseverança dos santos, cujas iniciais em inglês formam a palavra “TULIP”.

O Sínodo de Dort marcou um importante ponto de transição na história da fé reformada na Holanda. Estabeleceu definitivamente o calvinismo como a teologia da igreja holandesa e também tornou oficiais a Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg. Os cânones, que foram assinados por todos os delegados, expressaram o consenso de uma significativa diversidade teológica e representaram o triunfo de um calvinismo moderado, sendo considerada uma das melhores expressões da ortodoxia protestante

quarta-feira, 10 de maio de 2017

10 teses de Farel, Calvino e dos reformados contra os papistas (Parte 1/2)



10 teses de Farel, Calvino e dos reformados contra os papistas (Parte 1/2)






500 anos de Reforma Protestante


Em comemoração aos 500 anos de Reforma Protestante, o Voltemos ao Evangelho trará artigos semanais e biografias de diferentes reformadores: Girolamo Zachi (jan), Theodoro Beza (fev), Thomas Cranmer (mar), Guilherme Farrel (abr), William Tyndale (mai), Martin Bucer (jun), John Knox (jul), Ulrico Zuínglio (ago), João Calvino (set) e Martinho Lutero (out).

Nota de tradução e edição: O debate a seguir é um breve excerto e edição da obra de Melchior Kirchhofer, “A Vida de Guilherme Farel, o Reformador Suíço”, modernizada e disponibilizada em inglês pelo excelente William H. Gross, editor do precioso website OnTheWing.org. A edição fez-se necessária a fim de tornar a leitura mais agradável e compreensiva aos leitores de fala portuguesa. Para ter acesso a essa obra na íntegra clique aqui.
***
Farel elaborou as seguintes dez proposições que seriam objeto de disputa no debate de Lausanne:
  1. A Escritura não reconhece outra justificação senão pela fé em Cristo, oferecida de uma vez por todas. Quem busca o perdão dos pecados por qualquer outra forma, oferta ou purificação, praticamente nega a eficácia desta oferta.
  2. A igreja não reconhece nenhum outro Sumo Sacerdote, Senhor, Mediador ou Cabeça da igreja além daquele que ressuscitou dentre os mortos e foi exaltado à destra do Pai.
  3. Não há outra igreja de Deus além daquela que recebe a sua redenção somente por meio da morte do Senhor; crê somente em sua Palavra e confia firmemente nela; sabendo que, desde a sua ascensão, ele preenche, preserva, governa e vivifica tudo pelo poder do seu Espírito.
  4. Essa igreja, a única reconhecida por Deus, faz uso das ordenanças designadas por Cristo, o batismo e a ceia do senhor, como os símbolos ou sinais das realidades invisíveis da graça divina.
  5. Essa igreja não reconhece outros ministros além daqueles que administram a palavra e essas santas ordenanças.
  6. Essa igreja não reconhece nenhuma outra confissão ou absolvição além do que é feita a Deus, e recebida somente da parte daquele que pode perdoar os pecados.
  7. Essa igreja não adota outra forma de adoração além da que está de acordo com a Palavra de Deus e fundada no amor a Deus e ao próximo; por isso, ela rejeita inúmeras cerimônias, imagens, etc., que deformam a religião.
  8. Essa igreja reconhece apenas um magistrado civil, designado por Deus, necessário para a paz do país, e a quem todos são obrigados a ser obedientes, na medida em que as suas ordens não são contrárias à vontade de Deus.
  9. Essa igreja também ensina que o casamento é ordenado por Deus para todos os homens, e não se opõe à santidade de qualquer ordem ou posição na vida.
  10. No que diz respeito às coisas consideradas indiferentes, tais como carnes, bebidas e dias de festas, o cristão tem a liberdade de observá-los de acordo com as regras da prudência e da caridade.
Antes da chegada da delegação de Berna, Farel dirigiu-se à assembleia e procurou prepará-los para uma correta consideração dos assuntos do debate. Ele aconselhou todos os presentes a orarem para que Deus os iluminasse e concedesse a vitória à verdade; e que ouvissem ambos os lados imparcialmente e examinassem cuidadosamente os argumentos. Ele exortou os clérigos e pregadores a terem uma suprema consideração a Jesus Cristo, e a serem zelosos, não por sua própria reputação, mas pelo bem-estar dos seus rebanhos. Ele almejava, pelos argumentos mais convincentes, induzir todos os que o ouvissem a se esforçarem pela glória de Deus e pela salvação das almas.
E ele expressou de forma clara a inevitável miséria daqueles que negligenciam o Salvador. Depois de aconselhá-los a um uso moderado da liberdade cristã, e expressando os seus devotos desejos de paz e unanimidade, ele lhes exortou a buscar e consolar os pobres e aflitos, e ministrar às suas necessidades, tanto espirituais quanto temporais. E (aludindo à doutrina papista) os exortou a fazerem as suas peregrinações a santos como esses, como sendo as verdadeiras “imagens de Deus”.
Chegado o dia do debate de Lausanne, Farel iniciou a reunião e foi seguido pelo oficial de justiça que declarou às pessoas presentes o objeto da disputa: dissipar os distúrbios que haviam surgido no país por causa da religião. Ele conduziu um juramento aos presidentes, que eles ouviriam ambos os lados com imparcialidade, apaziguariam todas as contendas e permitiriam que o apelo final fosse feito somente às Escrituras.
As duas partes estavam frente a frente. Por um lado, Farel, Viret, Calvino, Caroli, Fabri, Marcourt e Le Comte; e, do outro, o clero da catedral, os dominicanos e franciscanos de Lausanne, os agostinianos de Thonon e todo o sacerdócio dos distritos conquistados. Farel e Viret tomaram a parte mais proeminente na disputa. Calvino falou pouco, mas o suficiente para o propósito. Seu principal oponente era o francês Claude Blanchrose, um dos médicos do rei que tinham se estabelecido em Lausanne.
Continua na Parte 2.

10 teses de Farel, Calvino e dos reformados contra os papistas (Parte 2/2)

Mundo GospelemVida Cristã - Há 5 horas

10 teses de Farel,Calvino e dos reformados contra os papistas (Parte 2/2) *(Esta é a Parte 2/2. Leia a Parte 1.)* Farel leu a primeira proposição, com provas e elucidações escriturísticas. Quando a parte oposta foi chamada a responder, os clérigos de Lausanne iniciaram um protesto tedioso contra o debate, principalmente alegando que as Escrituras recomendam a paz, enquanto um debate só geraria conflitos; que qualquer igreja em particular era sujeita a erros; e, em suma, que eles não tinham a liberdade para o debate, mas deveriam esperar por um concílio geral. Farel responde... mais »
Por: Melchior Kirchhofer. © On the Wing. Website: onthewing.org. Traduzido com permissão. Fonte: THE LIFE OF WILLIAM FAREL, THE SWISS REFORMER. Original: O debate entre Guilherme Farel e Guy Fuerbity (Parte 2/2). © Ministério Fiel. Website: Ministerio Fiel.Todos os direitos reservados. Tradução: Camila Rebeca Teixeira. Revisão: William Teixeira.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Reforma Protestante foi um movimento reformista





Reforma Protestante foi um movimento reformista



INTRODUÇÃO

Reforma Protestante foi um movimento reformista cristão culminado no início do século XVI por Martinho Lutero, quando através da publicação de suas 95 teses, em 31 de outubro de 1517 na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, protestou contra diversos pontos da doutrina da Igreja Católica Romana, propondo uma reforma no catolicismo romano. Os princípios fundamentais da Reforma Protestante são conhecidos como os Cinco Solas: Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura (somente a Escritura), Solus Christus (somente Cristo), Sola Gratia (somente a graça), Soli Deo Gloria (glória somente a Deus). Lutero foi apoiado por vários religiosos e governantes europeus provocando uma revolução religiosa, iniciada na Alemanha, estendendo-se pela Suíça (com Ulrico Zwínglio), França (com Guilherme Farel e João Calvino – posteriormente conhecidos como Huguenotes), na Inglaterra – com os Puritanos, Países Baixos – com os Reformados, na Escócia (Reino Unido) – com os presbiterianos, Escandinávia (norte europeu) e algumas partes do Leste europeu, principalmente os Países Bálticos e a Hungria (cf. Os Reformadores). A resposta da Igreja Católica Romana foi o movimento conhecido como Contrarreforma ou Reforma Católica, iniciada no Concílio de Trento.

CONCÍLIO DE TRENTO

O Concílio de Trento, realizado de 1545 a 1563, foi o 19º concílio ecuménico da Igreja Católica. Foi convocado pelo Papa Paulo III para assegurar a unidade da fé e a disciplina eclesiástica, no contexto da Reforma da Igreja Católica e da reação à divisão então vivida na Europa devido à Reforma Protestante, razão pela qual é denominado também de Concílio da Contrarreforma. O Concílio foi realizado na cidade de Trento, no antigo Principado Episcopal de Trento, região do Tirol italiano. O Concílio de Trento, atrasado e interrompido várias vezes por divergências políticas ou religiosas, foi um conselho de uma grande reforma, uma personificação dos ideais da Contrarreforma. Mais de 300 anos se passaram até ao Conselho Ecumênico seguinte. Ao anunciar o Concílio Vaticano II, o Papa João XXIII afirmou que os preceitos do Concílio de Trento continuam nos dias modernos, uma posição que foi reafirmada pelo Papa Paulo VI.

A REFORMA CATÓLICA

Contrarreforma, que ficou também conhecida por Reforma Católica, é o nome dado ao movimento que surgiu no seio da Igreja Católica a partir de 1545, e que, segundo alguns autores, teria sido uma resposta à Reforma Protestante (de 1517) iniciada por Lutero. Em 1545, a Igreja Católica Romana convocou o Concílio de Trento (na cidade italiana de Trento) estabelecendo entre outras medidas, a retomada do Tribunal do Santo Ofício – Inquisição (um grupo de instituições dentro do sistema jurídico da Igreja Católica Romana, cujo objetivo é combater a heresia), a criação do “Index Librorum Prohibitorum – Índice dos Livros Proibidos”, com uma relação de livros proibidos pela Igreja e o incentivo à catequese dos povos do Novo Mundo, com a criação de novas ordens religiosas, dentre elas a Companhia de Jesus (Jesuítas). Outras medidas incluíram a reafirmação da autoridade papal, a manutenção do celibato eclesiástico, a reforma das ordens religiosas, a edição do catecismo tridentino, reformas e instituições de seminários e universidades, a supressão (ato ou efeito de eliminar) de abusos envolvendo indulgências e a adoção da Vulgata (tradução para o latim da Bíblia, escrita entre fins do século IV início do século V, por São Jerônimo, a pedido do bispo Dâmaso I) como tradução oficial da Bíblia. Podemos dizer que a contrarreforma foi uma resposta direta à Reforma Protestante.

O resultado da Reforma Protestante foi à divisão da chamada Igreja do Ocidente entre os católicos romanos e os reformados ou protestantes, originando o protestantismo.

Durante muito, os primeiros cristão foram perseguidos e até mortos por causa de Cristo. A situação mudou quando o imperador romano Constantino (313 d.C), institui uma série de benefícios ao Cristianismo, tais como: isenção de impostos, terras, pagamento dos bispos e ajuda na construção de templos. Poder e dinheiro passaram a influenciar a vida da Igreja, que, em 392 d.C se fundiu com o Estado, tornando-se a mesma coisa. Com isso, muitos passaram a fazer parte da “nova religião”, não por convicção e fé, mas por favores e benefícios. Aquela vida comunitária, aquele amor cristão, o partir o pão de casa em casa e o socorrer aos necessitados viraram práticas do passado. O Cristianismo começou a decair moralmente, e seus fiéis não corresponderem à Palavra e à vontade de Deus. Na Idade Média, quem mandava na Igreja era o Papa. Naquela época, ele tinha plenos poderes para instituir e derrubar reis e reinos: A igreja passou de perseguida a perseguidora, e muitos sofreram nas mãos dessa “Igreja Cristã”. Foi criado o “clero”, que era uma liderança muito mais política que espiritual, e mantinha uma distância enorme do povo. O clero não parecia de forma alguma com o grupo dos apóstolos, que viviam em meio ao povo.

Veja alguns erros da Igreja neste período:

380 d.C. – Oração pelos mortos.
535 d.C. – Instituição das procissões.
538 d.C. – Celebração da missa de costa para o povo.
757 d.C. – Adoração de imagens.
884 d.C. – Canonização de santos.
885 d.C. – Adoração da “Virgem Maria”.
1022 d.C. – Legalização da penitência por dinheiro.
1059 d.C. – Aceitação da transubstanciação dos elementos da Ceia (acreditar que o pão e o vinho se transformam verdadeiramente no corpo e sangue de Cristo, de forma tal, que embora pareça pão e vinho, o que você esta comendo e bebendo é o próprio e real corpo e sangue de Jesus).
1215 d.C. – Adoção da confissão auricular (Os fiéis católicos aprendem que devem confessar seus pecados mortais pelo menos uma vez por ano a um sacerdote humano).
1470 d.C. – Invenção do rosário.

Diante de tantas coisas erradas e corrompidas uma Reforma era urgente. Quando falamos em reforma logo pensamos em algo que será melhorado. Você não começaria uma reforma em sua casa para que ela ficasse em um estado pior. Foi isso o que aconteceu com a Igreja no período da Reforma Protestante – buscou-se consertar o que estava errado, voltar à Palavra de Deus sempre foi o objetvo. A igreja precisava ser restaurada no reto caminho e abandonar os desvios que havia tomado. Veremos um pouco do que aconteceu naquele período e, principalmente, os importantes ensinos bíblicos resgatados pelos reformadores.

1 – REFORMA NA IGREJA

É preciso entender a Reforma Protestante, não como alguns sugerem, apenas um ato político, em que príncipes e nobres puderam rebelar-se contra o poder dominante da Igreja Católica. A Reforma envolveu, principalmente, a vida espiritual da época. Martinho Lutero era um monge católico que, a partir do estudo das Escrituras, descobriu a verdade de que“o justo deveria viver pela fé” (Romanos 1:17). Transformado por essa verdade da Palavra de Deus, Lutero desejava agora corrigir os erros que encontrava na Igreja Católica. No dia 31 de outubro de 1517, véspera do “Dia de todos os Santos”, ele afixou suas 95 teses à porta da Igreja do Castelo, na cidade alemã de Wittemberg, combatendo principalmente a venda de indulgência praticada pela Igreja.

As indulgências eram documentos que, quando comprados, concediam perdão pelos pecados, tanto para vivos, quanto para parentes já mortos. Na doutrina católica, Indulgência (do latim “indulgentia”, que provém de “indulgeo” – “para ser gentil”) é o perdão fora dos sacramentos, total ou parcial, e “da pena temporal devida, para a justiça de Deus, pelos pecados que foram perdoados, ou seja, do mal causado como consequência do pecado já perdoado, a remissão é concedida pela Igreja Católica no exercício do poder das chaves, por meio da aplicação dos superabundantes méritos de Cristo e dos santos, por algum motivo justo e razoável”.
Martinho Lutero combateu Johann Tetzel, um alemão católico romano, frade dominicano e pregador, que tornou-se o grande comissário da Igreja Católica Romana para pregar a indulgência “cristã” no século XVI, o que ele fez ao longo de sua vida. Em 1509, exerceu a função de inquisidor da Polônia e, em 1517, o Papa Leão X o fez comissário de indulgências para toda a Alemanha.

A igreja Romana reagiu duramente a esse ato de Martinho Lutero, mas iniciava-se ali o movimento da Reforma Protestante. Lutero foi excomungado e perseguido pela Igreja Católica, mas contou com o apoio do povo alemão. A verdade da justificação pela fé estava apenas começando a percorrer a Europa. Sucederam a Lutero outros grandes reformadores, como João Calvino, Melanchton, Ulrico Zwínglio e John Knox. João Calvino pode ser considerado o grande sistematizador da Teologia da Reforma com a sua obra:“As institutas da Religião Cristã”, Deus conduziu homens para que a Igreja voltasse à verdade da sua Palavra. Os discípulos de Cristo do período da Reforma deixaram marcas profundas na sociedade e na Igreja. Podemos entender melhor essas marcas estudando as “bandeiras” levantadas pelos reformadores – os Solas da Reforma.

2 – OS SOLAS DA REFORMA

A palavra latina Solas significa “somente”. Os reformadores definiram cinco lemas usando essas palavras e suas variações. Vejamos:

(1) SOLA SCRIPTURA – SOMENTE AS ESCRITURAS

Sola Scriptura, segundo a Reforma Protestante, é o princípio no qual a Bíblia tem primazia ante a Tradição legada pelo magistério da Igreja, quando, os princípios doutrinários entre esta e aquela forem conflitantes. Na Reforma, não se rejeita a Tradição, ela continua a ser usada como legitimadora para qualquer assunto omitido pela Bíblia. Quando houver divergências entre Bíblia e tradição, a Bíblia terá sempre primazia.
A Bíblia era conhecida somente pelos estudiosos da Igreja Católica que a utilizavam como bem entendiam. A Igreja defendia práticas totalmente estranhas à Palavra de Deus ensinando “doutrinas que são preceitos de homens” (Marcos 7:7). O movimento da Reforma disse “não” a esse procedimento da Igreja Romana e afirmou Sola Scriptura, ou seja, somente cremos e praticamos o que a Bíblia ensina somente a Bíblia deve ser a nossa regra de fé e prática. Os reformadores se empenharam em traduzir a Bíblia para que todas as pessoas tivessem acesso a ela e pudessem julgar os ensinos da Igreja por meio do próprio estudo da Palavra. Muitas vezes não damos o devido valor ao fato de hoje termos a facilidade da Palavra de Deus impressa em nossa própria língua e não a estudamos tanto quanto deveríamos. Lembre-se: devemos ser guiados somente pelas Escrituras. Nos movimentos de inspiração protestante considerado historicamente como, por exemplo, na Inglaterra os puritanos, e outros surgidos durante o século XIX, esse principio foi resignificado como “nuda Scriptura – (Escritura por si somente)”, passando a ser entendido ao pé da letra, adotando-se a ideia de que a “Escritura interpreta a própria Escritura”, bem como a que a mesma era suficiente como única fonte de doutrina e prática cristãs em todos os aspectos. O modelo “Nuda Scriptura” veio a reproduzir-se na máxima “nenhum credo senão a Bíblia”. Certamente há uma diferença entre o debate acerca dos usos dos credos e confissões de fé, e o debate propriamente dito acerca da legitimidade ou propriedade de se elaborar e sustentar um credo. O debate sobre o uso de credos e confissões de fé – “Em que contextos ou em que situações?”– rege-se pela regra da “prudência cristã”, e o uso prático pode diferir de Igreja para Igreja, de ministro para ministro, ou de uma comunhão de Igrejas para outra. Já o modelo anticredalista e anticonfessionalista, por si mesmo, é, segundo entendimento, inteiramente equivocado. As confissões de fé e os credos são de extrema importância para a vida da Igreja e para uma saudável espiritualidade atrelada à piedade.

(2) SOLUS CHRISTUS – SOMENTE CRISTO

Solus Christus, (às vezes usado na sua forma ablativa Solo Christo). Esta expressão latina refere-se ao termo: “salvação somente por Cristo”.
Cremos que a Bíblia é a nossa única regra de fé e prática e, estudando-a, verificamos que Cristo é o tema central das Escrituras. Quando a Palavra de Deus é tomada como regra de vida, obrigatoriamente temos Cristo como centro de nosso viver. Jesus mesmo afirmou que as Escrituras testificam dEle (João 5:39). Ao caminhar com os discípulos de Emaús, após ter ressuscitado, Cristo falou sobre o fato de que toda a Escritura testificava dEle e que aquelas coisas deveriam acontecer (Lucas 24:25 – 27). A Teologia não pode estar centrada no homem, mas em Cristo. A Igreja Romana, jeitosamente, colocava o homem no centro. Eram as necessidades do homem que precisavam ser atendidas e não a vontade de Deus expressa em Sua Palavra. Devemos nos lembrar das palavras do apóstolo Paulo aos gálatas: “Porventura, procuro eu, agora, o favor dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo” (Gálatas 1:10). Somos servos de Cristo e não de homens. Portanto, somente Cristo.
A Teologia Reformada afirma que a Escritura e sua doutrina sobre a graça e fé enfatizam que a salvação é Solus Christus, “somente por Cristo”, isto é, Cristo é o único Salvador (Atos 4:12). B.B. Warfield escreveu: “O poder salvador da fé reside, portanto, não em si mesma, mas repousa no Salvador Todo Poderoso”.
A centralidade de Cristo é o fundamento da fé protestante. Martinho Lutero disse que Jesus Cristo é o “centro e a circunferência da Bíblia” — isso significa que quem Ele é e o que Ele fez em sua morte e ressurreição são o conteúdo fundamental da Escritura. Ulrico Zwínglio disse: “Cristo é o Cabeça de todos os crentes, os quais são o seu corpo e, sem ele, o corpo está morto”.

Sem Cristo, nada podemos fazer, nEle, podemos fazer todas as coisas (João 15:5; Filipenses 4:13). Somente Cristo pode trazer salvação. Paulo deixa claro em Romanos 1 – 2 que, embora haja uma automanifestação de Deus além da sua obra salvadora em Cristo, nenhuma porção de Teologia natural pode unir Deus e o homem. A união com Cristo é o único caminho da salvação.

Nós precisamos urgentemente ouvir Solus Christus em nossos dias de Teologia pluralista. Muitas pessoas hoje questionam a crença de que a salvação é somente pela fé em Cristo. Como Carl E. Braaten (1929) diz, eles “estão voltando à velha e falida forma de abordagem cristológica do século XIX, do liberalismo protestante, e chamando-a de “nova”, quando, na verdade, é pouco mais que uma “Jesusologia” superficial”. O resultado final é que, atualmente, muitas pessoas, como Helmut Richard Niebuhr (1962) disse em sua famosa frase a respeito do liberalismo — proclamam e adoram “um Deus sem ira, o qual trouxe homens sem pecado para um reino sem julgamento por meio de ministrações de um Cristo sem a cruz”.

“Arrependei-vos, e crede no evangelho de Jesus Cristo – Marcos 1:15.

Nossos antepassados reformados, aproveitando uma perspectiva que rastreia todo o caminho de volta aos escritos de Eusébio de Cesaréia, no século IV, acharam útil pensar a respeito de Cristo como Profeta, Sacerdote e Rei. A Confissão Batista de Londres de 1689, por exemplo, coloca isso da seguinte forma: “Cristo, e somente Cristo, está apto a ser o mediador entre Deus e o homem. Ele é o Profeta, Sacerdote e Rei da Igreja de Deus” (8.9). Observemos mais detalhadamente esses três ofícios.

Cristo, o Profeta.

Cristo é o Profeta que precisamos para nos instruir nas coisas de Deus, a fim de curar a nossa cegueira e ignorância. O Catecismo de Heidelberg o chama de “nosso principal Profeta e Mestre, que nos revelou totalmente o conselho secreto e a vontade de Deus a respeito da nossa redenção” (A. 31). “O Senhor, teu Deus”, Moisés declarou em Deuteronômio 18:15, “te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a Ele ouvirás”. Ele é o Filho de Deus, e Deus exige que nós o escutemos (Mateus 17:5).
Como o Profeta, Jesus é o único que pode revelar o que Deus tem planejado na história “desde a fundação do mundo”, e que pode ensinar e manifestar o real significado das “escrituras dos profetas” (o Antigo Testamento, cf. Romanos 16:25, 26). Podemos esperar progredir em nossa vida cristã apenas se dermos ouvidos à sua instrução e ensino.
Cristo, o Sacerdote.

Cristo é também o Sacerdote — nosso extremamente necessário Sumo Sacerdote que, como diz o Catecismo de Heidelberg: “pelo sacrifício de Seu corpo, nos redimiu, e faz contínua intercessão junto ao Pai por nós” (A. 31). De maneira resumida, “por causa do nosso afastamento de Deus e da imperfeição de nossos melhores serviços, precisamos de seu ofício sacerdotal para nos reconciliar com Deus e nos tornar aceitáveis por ele”.
A salvação está somente em Jesus Cristo, porque há duas condições que, não importa o quanto nos esforcemos, nunca poderemos satisfazer. No entanto, elas devem ser cumpridas se estamos para ser salvos. A primeira é satisfazer a justiça de Deus pela obediência à lei. A segunda é pagar o preço de nossos pecados. Nós não podemos cumprir nenhuma dessas condições, mas Cristo as cumpriu perfeitamente. Romanos 5:19 diz: “por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos”. Romanos 5:10 diz:“nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho”. Não há outra maneira de entrar na presença de Deus a não ser por meio de Cristo somente.
O sacrifício de Jesus ocorreu apenas uma vez, mas Ele ainda continua sendo o nosso grande Sumo Sacerdote, aquele através do qual toda a oração e louvor são feitos aceitáveis a Deus. Nos lugares celestiais, Ele continua sendo nosso constante Intercessor e Advogado (Romanos 8:34; 1 João 2:1). Não é de se admirar, então, que Paulo diz que a glória deve ser dada a Deus “por meio de Jesus Cristo pelos séculos dos séculos”(Romanos 16:27). O gozo de achegarmo-nos a Deus pode crescer apenas por uma confiança profunda nEle como nosso sacrifício e intercessor.

Cristo, o Rei.

Finalmente, Cristo é o Rei, que reina sobre todas as coisas. Ele reina sobre sua Igreja por meio de Seu Espírito Santo (Atos 2:30 – 33). Ele soberanamente dá o arrependimento ao impenitente e concede perdão ao culpado (Atos 5:31). Cristo é “(...) o nosso Rei eterno que nos governa por Sua Palavra e Espírito, e que defende e preserva-nos no gozo da salvação que Ele adquiriu para nós” (O Catecismo de Heidelberg, P&R. 31 – cf. Salmos 2:6; Zacarias 9:9; Mateus 21:5; Lucas 1:33; Mateus 28:18; João 10:28; Apocalipse 12:10, 11). Como o Herdeiro real da nova criação, Ele nos levará a um reino de eterna luz e amor. Neste sentido, podemos concordar com João Calvino quando ele diz: “Nós podemos passar pacientemente por esta vida com sua miséria, frieza, desprezo, injúrias e outros problemas — satisfeitos com uma coisa: que o nosso Rei nunca nos deixará desamparados, mas suprirá as nossas necessidades, até que, ao terminar nossa luta, sejamos chamados para o triunfo”. Podemos crescer na vida cristã apenas se vivermos obedientemente sob o domínio de Cristo e pelo Seu poder.
Se você é um filho de Deus, Cristo em seu tríplice ofício como Profeta, Sacerdote e Rei significará tudo para você.

Você ama Solus Christus? Você o ama em Sua pessoa, ofícios, naturezas e benefícios? Ele é o Seu Profeta para ensinar-lhe, o Seu Sacerdote para sacrificar e interceder por você e lhe abençoar, e o Seu Rei para governá-lo e guiá-lo?

Depois de uma execução empolgante da Nona Sinfonia de Beethoven, o famoso maestro italiano Arturo Toscanini disse à orquestra: “Eu não sou nada. Você não é nada. Beethoven é tudo”. Se Toscanini pode dizer isso sobre um compositor brilhante, mas que está morto, quanto mais os cristãos, devem dizer o mesmo sobre o Salvador que vive, o qual, no que diz respeito à nossa salvação, é o compositor, músico e até mesmo a própria bela música.

(3) SOLA GRATIA – SOMENTE A GRAÇA

Sola Gratia é um dos cinco solas propostos pelos reformadores para resumir as crenças fundamentais do cristianismo. Esta expressão latina significa: “Graça somente”, a ênfase se dava em razão da doutrina católica vigente de que as boas obras ajudariam na salvação do homem, e que tal ensino é diametralmente oposto do ensinamento Bíblico. Pois a Escritura afirma: “Não vem das obras para que ninguém se glorie” – Efésios 2:9, e o versículo anterior responde a “ordem” e motivo da salvação que tem fonte em seu doador – Deus “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus”. As boas obras em Si testificam de uma Fé genuína dada por Deus, sem contribuir em nada para salvação do homem.

“As obras não contribuem em nada para a salvação do homem, mas o poder de Deus faz com que homens façam aquilo que jamais seriam capazes de fazer por uma graça dada de forma incondicional, e para gozarem pela fé daquilo que jamais seriam capazes de realizar, pela pessoa e obra de Jesus o Cristo – foi realizado o cumprimento da justiça de Deus para salvação e resgate daqueles que não eram resgatáveis”. Por isso a salvação é pela graça de Deus e não por obras. “A Lei dizia: Faça e viva! – a graça diz: Viva e faça!”.

A Igreja Romana ensinava que a graça de Deus era concedida ao crente à medida que ele cooperava com ela. Os reformadores se levantaram contra isso afirmando a verdade bíblia de que a graça é imerecida. Em momento algum, mesmo que realizando um ato de extrema bondade aos olhos dos homens, somos indignos de qualquer merecimento da parte de Deus – não merecemos absolutamente nada da parte de Deus, apenas a condenação pelos os nossos pecados. Afirmar que o homem coopera com a graça de Deus é buscar uma pregação centrada no homem e não em Deus, “porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa vontade”(Filipenses 2:13). Lembramos, ainda, das palavras de Paulo aos Romanos: “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia”(Romanos 9:16). Mesmo no meio evangélico, por vezes, há o equívoco de se pregar uma graça divina submissa à vontade do homem. Dizem os pregadores que, pedindo com insistência, fazendo jejuns, “correntes”, e coisas parecidas, Deus vai responder ao que se está pedindo. Dificilmente se fala sobre a condição miserável do homem em sua natureza pecaminosa e sua necessidade total da maravilhosa graça de Deus. Precisamos urgentemente reafirmar: Somente a graça.

(4) SOLA FIDE – SOMENTE PELA FÉ

Sola fide é o ensinamento de que a justificação (interpretada na Teologia protestante como “sendo declarada apenas por Deus”) é recebida somente pela fé, sem qualquer interferência ou necessidade de boas obras, embora na Teologia protestante clássica, a fé salvadora é sempre evidenciada, mas não determinada, pelas boas obras. Alguns protestantes veem esta doutrina como sendo o resumo da fórmula “fé produz justificação e boas obras” e em contraste com a fórmula católica romana “fé e boas obras rendem justificação”. O argumento católico é baseado de forma equivocada na Epístola de Tiago (Tiago 2:14 – 17).

É importante a comparação do que católicos e protestantes entendem como “justificação”: ambos concordam que o termo invoca a comunicação dos méritos de Cristo para com os pecadores, e não uma declaração de ausência de pecado. Lutero usou a expressão“simul justus et peccator” (“ao mesmo tempo, justo e pecador”). O Catolicismo Romano vê a justificação como uma comunicação de vida de Deus ao ser humano, limpando-o do pecado e transformando-o realmente em filho de Deus, de modo que não é apenas uma declaração, mas a alma é tornada de fato objetivamente justa.
A visão protestante da justificação é que ela é a obra de Deus através dos meios da graça. A fé é a justiça de Deus, que é realizada em nós através da palavra e dos sacramentos. Lei e evangelho trabalham para matar o ego pecaminoso e para realizar a nova criação dentro de nós (Regeneração – novo nascimento). Esta nova criação dentro de nós é a fé de Cristo. Se não temos essa fé, então somos ímpios. Indulgências, ou orações não acrescentam nada e nada são. Todos possuem algum tipo de fé (geralmente a fé em si mesmos). Mas precisamos de Deus para destruir continuamente fé hipócrita e substituí-la com a vida de Cristo. Precisamos da fé que vem de Deus através da lei e do evangelho, palavra, obras e sacramentos. No documento fundador da Reforma, as 95 teses, Lutero diz que:

1 – Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: “Arrependei-vos (...)” – Mateus 4:17, certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo arrependimento.

95 – E assim esperem mais entrar no Reino dos céus através de muitas tribulações do que facilitados diante de consolações infundadas. (Atos 14:22).   

A verdadeira distinção, portanto, entre as visões protestante e católica não é uma questão de “ser declarado justo” versus “ser feito justo”, mas sim o meio pelo qual um é justificado. Na Teologia católica obras de justiça são consideradas meritórias para a salvação além da fé, enquanto que na Teologia protestante, obras de justiça são vistos como o resultado e evidência de uma verdadeira justificação e regeneração que o crente recebeu somente pela fé. Os meios eficazes reais pelos quais uma pessoa recebe a justificação são também uma divisão fundamental entre a crença católica e protestante. Na Teologia católica, o meio pelo qual a justificação é aplicada para a alma é o sacramento do batismo. No batismo, mesmo das crianças, a graça da justificação e santificação são “infundidas” na alma, tornando o destinatário justificado, mesmo antes que ele exerça sua própria fé (ou mesmo no caso de uma criança que é batizada, antes mesmo que ele tenha a capacidade de compreender conscientemente o Evangelho e responder com fé). Na Teologia católica, a fé não é um pré-requisito para a justificação. Para os católicos, a função do batismo é“ex operere operato” ou “por obra do ato”, e, portanto, é o ato eficaz e suficiente para trazer justificação. Na Teologia protestante, no entanto, é absolutamente necessária a fé do indivíduo e é por si mesma a resposta eficiente e suficiente do indivíduo para os efeitos da justificação.
A doutrina Sola Fide é às vezes chamada de princípio formal e material da Teologia da Reforma, porque era a questão doutrinal central para Martinho Lutero e os outros reformadores. Lutero chamou de “doutrina pela qual a Igreja permanece ou cai – latim: “articulus stantis et cadentis ecclesiae”.

A Igreja Romana não negou a necessidade da fé para a salvação. Porém, eles referiam-se a uma fé que, na verdade, era um mero consentimento ao ensino da Igreja. Não é essa a fé da qual fala bíblia. Os reformadores demonstraram que a fé que traz a salvação é a confiança na promessa de Deus e Cristo de salvar pecadores.
Somos tornados justos pelo sacrifício perfeito de Cristo, pois somente Ele é perfeitamente justo. A justiça de Cristo é imputada a nós pela fé. Não se trata de uma fé, que também seria “cooperativa”, mas da fé que nos é concedida por Deus: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Efésios 2:8). Como antes já citado.
Devemos ter fé, mas é preciso esforço, empenho, pois podemos “cair da graça” de forma definitiva a sermos condenados, é o que dizem muitas pregações que não são sustentadas pela Escritura, de fato podemos “cair da graça” temporariamente, mas seremos salvos como eleitos de Deus pela fé em Cristo Jesus. A palavra de Deus nos ensina: Somente pela fé (em Cristo) seremos salvos, “Quem crer (...) será salvo” – Marcos 16:16.

(5) SOLI DEO GLORIA – SOMENTE GLÓRIA A DEUS

“Pregar a Escritura é pregar a Cristo, pregar Cristo é pregar a cruz, pregar a cruz é pregar a graça, pregar a graça é pregar a justificação, pregar a justificação é atribuir o todo da salvação à glória de Deus e responder a essa Boa Nova em grata obediência por meio de nossa vocação no mundo”. (Michael Horton, “Os Solas da Reforma” in Reforma Hoje, Editora Cultura Cristã, 1999, pág. 124).

Essa frase de Michael Horton resume bem o que representam os Solas da Reforma. Tudo resulta na glória de Deus. Toda a glória é devida ao Seu nome. Deus revelou-se através das Escrituras, enviou Seu Filho para morrer no lugar de Seus escolhidos, concedendo, somente por Sua graça, a salvação pela fé. Os alcançados pela graça divina rendem louvores em espírito e em verdade ao Deus Todo-Poderoso.

Devemos nos perguntar se reconhecemos de fato que somente Deus é digno de adoração. É isso que transparece em nossos cultos? Neles, exalta-se o nome de Deus, ou o “grande” pregador, o pastor que cura, e o conjunto musical? Os pregadores, em seus púlpitos, estão preocupados em render glória a Deus por meio de sua pregação ou somente em fornecer mensagens “confortadoras” ou intelectuais para o rebanho, servindo como um momento de “relaxamento”, vaidades e “descontração”? Devemos ter em mente que toda Glória deve ser dada Somente a Deus. Sola Gratia é o ensinamento de que salvação vem por graça divina ou “favor imerecido” apenas, e não como algo merecido pelo pecador. Isto significa que a salvação é um dom imerecido de Deus por causa de Jesus o Cristo.

CONCLUSÃO

A Reforma Protestante foi marcada por homens que decidiram seguir a Jesus, que fizeram de suas vidas um testemunho do que Deus pode fazer na vida de qualquer um de nós. Devemos estar dispostos a, assim como aqueles homens, defender as doutrinas principais da bíblia e proclamá-la em alto e bom som em amor e justiça.
Que Deus nos conceda ousadia e coragem para anunciarmos a verdade de sua palavra àqueles que estão em caminhos tortuosos.

Paz e graça.

Capa: Marcos Frade.

Citações: (1) Declaração de Cambridge. (2) Sproul, Robert Charles (2013), Sola Gratia. A controvérsia sobre o livre arbítrio ao longo da história. (3) Sola Scriptura: A Doutrina Reformada das Escrituras. (4) Lutero, Martinho, As 95 Teses.


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